Bella Campos revela depressão após novela e expõe debate sobre saúde mental nos bastidores do trabalho
Declaração da atriz reacende discussões sobre pressão profissional, cultura organizacional e responsabilidade das empresas
A atriz Bella Campos trouxe à tona um tema cada vez mais urgente no ambiente profissional ao revelar que enfrentou um quadro de depressão após o período em que esteve no ar em uma novela, contracenando com Cauã Reymond. O relato, que rapidamente ganhou repercussão, evidencia uma realidade que vai além dos bastidores da televisão e atinge trabalhadores de diferentes setores: o impacto direto do ambiente de trabalho na saúde mental.
Especialistas apontam que situações como essa não devem ser analisadas apenas como questões individuais. Para a psicóloga e especialista em saúde mental corporativa Daisy Cangussú, o caso é um alerta importante sobre a forma como o trabalho é estruturado. “O sofrimento emocional não pode ser compreendido apenas como uma fragilidade individual. Muitas vezes, ele está diretamente ligado à organização do trabalho, ao estilo de liderança, à pressão por desempenho e à cultura da empresa”, explica.
Segundo ela, fatores como conflitos recorrentes, cobranças excessivas, humilhações, assédio, sobrecarga e falta de suporte funcionam como riscos psicossociais relevantes. “Quando essas condições se mantêm ao longo do tempo e não são enfrentadas, podem contribuir significativamente para o adoecimento emocional”, afirma.
A especialista destaca ainda que, do ponto de vista técnico, o ambiente de trabalho pode atuar como gatilho ou agravante. “É mais adequado dizer que o trabalho funciona como fator de risco ou agravante. Ele não causa a depressão de forma isolada, mas pode contribuir de maneira importante, especialmente quando há exposição contínua a pressão extrema, insegurança e ausência de apoio”, pontua.
Outro ponto de atenção são os sinais que costumam surgir dentro das empresas. “Mudanças de comportamento, isolamento, queda de desempenho, cansaço extremo, irritabilidade e dificuldade de concentração são alguns dos principais alertas. Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro como uma queda de produtividade, e não como um pedido direto de ajuda”, explica Daisy.
Para ela, o papel das empresas vai além do discurso. “A primeira atitude deve ser acolher, escutar e preservar a dignidade do colaborador. O afastamento, quando necessário, precisa ser conduzido com responsabilidade, e o retorno deve ser acompanhado com cuidado, respeitando o tempo de recuperação”, afirma.
Apesar dos avanços no debate, a psicóloga ressalta que o tema ainda enfrenta resistência. “Muitas empresas já falam sobre saúde mental, mas isso nem sempre se traduz em mudanças reais na cultura organizacional. Em ambientes de alta pressão, ainda existe medo de expor o sofrimento por receio de julgamento”, diz.
A discussão ganha ainda mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que passa a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. “Isso significa que fatores como assédio, sobrecarga e conflitos deixam de ser vistos como questões subjetivas e passam a ser responsabilidade formal das empresas”, completa.
Na mesma linha, a especialista em gestão empresarial e comunicação estratégica Juliana D’Andrades reforça que a forma como as empresas lidam com conflitos internos é determinante. “A gestão de conflitos precisa ser encarada de forma estruturada e imparcial. Identificar o problema, promover o diálogo e mediar situações é essencial para evitar o agravamento de quadros emocionais”, afirma.
Do ponto de vista jurídico, a advogada trabalhista Silvana Campos destaca que o trabalhador possui uma série de direitos quando há impacto na saúde mental. “Os direitos incluem licença médica remunerada, estabilidade provisória após o retorno e o direito a um ambiente de trabalho psicologicamente seguro, além da proteção contra discriminação”, explica.
Ela também alerta para situações mais graves. “Caso haja assédio no retorno, o trabalhador pode pedir a rescisão indireta do contrato, garantindo todas as verbas rescisórias”, afirma.
Segundo a advogada, problemas emocionais já estão entre as principais causas de afastamento no país. “Eles costumam estar relacionados à carga de trabalho excessiva, metas abusivas, assédio e falta de suporte”, diz.
A legislação também impõe deveres às empresas nesses casos. “Ao identificar o abalo mental do funcionário, a empresa deve abrir a Comunicação de Acidente de Trabalho, agendar perícia no INSS, arcar com os primeiros 15 dias de afastamento e garantir estabilidade no emprego após o retorno. Em situações extremas, pode haver indenização por danos morais”, completa.
Para especialistas, o caso de Bella Campos reforça uma mudança de perspectiva no mundo do trabalho. Mais do que tratar o adoecimento quando ele já aconteceu, o desafio passa a ser construir ambientes mais seguros, com lideranças preparadas e uma cultura organizacional que não normalize a pressão excessiva, mas promova respeito, escuta e prevenção.
(Foto: Reprodução/Instagram)
