Nova NR-01 amplia debate sobre saúde mental e passa a ser aliada para a implantação do conceito ESG
Especialistas defendem que gestão dos riscos psicossociais deve deixar de ser uma ação pontual para se tornar parte da estratégia organizacional; livro reúne orientações práticas sobre a nova regulamentação
A entrada em vigor das novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) amplia as discussões sobre saúde mental no ambiente corporativo e coloca os riscos psicossociais no centro das estratégias de prevenção das empresas. Ao tornar obrigatória a identificação, avaliação e gestão desses riscos, a norma estabelece parâmetros objetivos para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis. Embora a NR-01 e o ESG sejam agendas distintas, especialistas apontam que a regulamentação pode servir como uma importante referência para organizações comprometidas com o fortalecimento do pilar Social, ao oferecer diretrizes concretas para a melhoria das relações de trabalho, da qualidade de vida dos profissionais e da responsabilidade corporativa.
Diante do aumento dos afastamentos relacionados a transtornos mentais no Brasil, o tema ganha relevância tanto no campo da conformidade legal quanto na busca por modelos de gestão mais humanos e eficientes. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Brasil registrou, no último levantamento consolidado, 546.516 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, o maior número da última década. Ansiedade, depressão e síndrome de burnout figuram entre as principais causas dessas licenças.
Nesse cenário, a NR-01 surge como um instrumento capaz de orientar empresas na identificação dos fatores que contribuem para o adoecimento ocupacional. Diferentemente dos riscos físicos, os fatores que impactam a saúde mental envolvem aspectos relacionados à cultura organizacional, às relações interpessoais, à forma de gestão e às condições em que o trabalho é realizado. Por isso, especialistas defendem que o tema seja tratado de forma preventiva e estrutural, e não apenas por meio de iniciativas voltadas ao atendimento de profissionais que já apresentam sinais de adoecimento.
Essa mudança de perspectiva é um dos fundamentos do livro “Saúde Mental no Trabalho: A NR-01 que Sustenta uma Equipe Forte”, organizado pela psicóloga Soraia Pena e por Ivan Sant’Ana Rabelo. Lançada recentemente em São Paulo, a obra reúne profissionais de diferentes áreas para discutir os impactos da nova regulamentação e oferecer orientações práticas para empresas, gestores e profissionais que buscam compreender e aplicar as exigências da norma.
Segundo Soraia Pena, a publicação tem como objetivo ampliar a compreensão técnica sobre o tema e contribuir para o combate à desinformação que ainda cerca as discussões sobre saúde mental no ambiente corporativo.
“A intenção é que o livro ajude a quebrar as fake news corporativas e a banalização que cercam a saúde mental. Reunimos profissionais capazes de trazer uma verdade científica e aplicada para que as empresas não trabalhem de forma equivocada as ações que precisam ser analisadas, mitigadas e minimizadas. É preciso normalizar o cuidado com o ser humano como uma prática do cotidiano laboral”, afirma.
Parceiro na organização da obra, Ivan Sant’Ana Rabelo destaca que a NR-01 representa uma mudança importante na forma como as organizações encaram a saúde mental dos trabalhadores. “A saúde mental deixa de ser tratada apenas como uma ação de bem-estar para assumir um papel estratégico, preventivo e de obrigação legal nas organizações”, afirma.
Para ele, a adequação à norma exige uma evolução das práticas corporativas. “É necessário que as empresas saiam do modelo assistencial para um modelo estrutural de prevenção. Agora, saúde mental deixa de ser apenas um benefício e passa a integrar a responsabilidade legal, estratégica e ética das organizações.”
É neste ponto que NR-1 e sustentabilidade se entrelaçam. Embora o foco da nova NR-01 esteja no cumprimento de obrigações relacionadas à saúde e à segurança do trabalhador, especialistas observam que muitos dos princípios estipulados pela norma convergem com valores defendidos pelo ESG, especialmente no que se refere ao cuidado com as pessoas e à construção de ambientes corporativos mais sustentáveis.
Para o especialista em ESG Roberto Gonzalez, a discussão sobre saúde mental no trabalho dialoga diretamente com a evolução das práticas corporativas. “O pilar Social do ESG envolve também a forma como as empresas cuidam das pessoas que fazem parte da organização. O cumprimento das diretrizes da NR-01 contribui para fortalecer práticas de gestão mais responsáveis, alinhadas à legislação e à construção de ambientes de trabalho mais saudáveis”, afirma.
Segundo Gonzalez, a gestão adequada dos riscos psicossociais também contribui para reduzir passivos trabalhistas, fortalecer a governança e aprimorar a sustentabilidade das organizações. “O investidor compreendeu que o adoecimento em massa de uma equipe é potencial indicativo de fragilidades na gestão, o que pode culminar até na perda de valor de mercado da companhia, dependendo do caso. Por isso, prevenir riscos psicossociais é uma medida que beneficia trabalhadores, empresas e o próprio ambiente de negócios”, conclui.
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