Seu joelho pode ter uma idade diferente da sua
Lesões antigas, sedentarismo, excesso de peso e perda de massa muscular podem acelerar o desgaste da articulação. A boa notícia é que parte desse processo pode ser retardada com prevenção e acompanhamento adequado.
Duas pessoas podem ter a mesma idade e viver realidades completamente diferentes quando o assunto é saúde do joelho.
Enquanto uma sobe escadas sem dificuldade, pratica atividade física regularmente e caminha longas distâncias sem limitações, a outra convive com dor, rigidez e dificuldade para realizar tarefas simples do dia a dia. A diferença nem sempre está na certidão de nascimento, mas na forma como aquela articulação foi exigida e cuidada ao longo da vida.
Embora não exista um exame capaz de determinar a “idade” de um joelho, médicos avaliam uma série de fatores que mostram o quanto aquela articulação preservou sua capacidade de suportar carga, absorver impacto e manter estabilidade. É o que muitos especialistas chamam de idade biológica da articulação.
O tema ganha relevância em um país que envelhece rapidamente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil já possui mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. As projeções indicam que esse grupo continuará crescendo nas próximas décadas, tornando a preservação da mobilidade um dos principais desafios para a saúde pública.
No cenário mundial, a Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 528 milhões de pessoas convivam com osteoartrite, sendo o joelho uma das articulações mais afetadas. A doença figura entre as principais causas de incapacidade física e perda de qualidade de vida na população adulta e idosa.
Segundo o ortopedista especialista em joelho Thales Rama, a idade cronológica é apenas um dos elementos considerados durante a avaliação clínica.
“É comum atender pacientes da mesma faixa etária com condições completamente diferentes. Alguns apresentam boa força muscular, mobilidade preservada e uma articulação saudável. Outros já convivem com limitações importantes, mesmo sem terem uma idade considerada avançada.”
O que faz um joelho envelhecer antes do tempo?
O desgaste da articulação não acontece por um único motivo. Trata-se de um processo influenciado por diferentes fatores que se acumulam ao longo dos anos.
Entre os principais estão o excesso de peso, lesões de ligamentos e meniscos maltratadas, perda de massa muscular, sedentarismo, desalinhamentos dos membros inferiores e repetição de atividades de alto impacto sem preparo adequado.
Estudos mostram que a perda gradual de massa muscular, conhecida como sarcopenia, começa a partir da quarta década de vida e compromete a capacidade de estabilizar as articulações durante movimentos simples. Quando a musculatura perde eficiência, o joelho passa a receber uma carga maior, favorecendo o aparecimento de processos inflamatórios e degenerativos.
Além disso, a obesidade continua sendo um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e a progressão da osteoartrite. O aumento da carga mecânica sobre a articulação acelera o desgaste da cartilagem e favorece alterações biomecânicas durante a caminhada.
“Nem sempre o paciente percebe esse processo. Muitas vezes ele reduz o ritmo das atividades, evita determinados movimentos e acredita que isso faz parte da idade. Na realidade, o corpo está se adaptando a uma articulação que já perdeu parte da sua capacidade funcional”, explica Rama.
Envelhecer não significa perder movimento
Se alguns fatores aceleram o desgaste, outros ajudam a preservar a função do joelho por muitos anos.
Fortalecimento muscular, controle do peso corporal, tratamento adequado de lesões, prática regular de atividade física e acompanhamento médico quando surgem os primeiros sintomas estão entre as medidas que mais contribuem para manter a articulação saudável.
Segundo Rama, um dos maiores equívocos é acreditar que sentir dor faz parte do envelhecimento e que reduzir completamente o movimento é a melhor solução.
“O joelho foi feito para se movimentar. O desafio é manter esse movimento com qualidade, equilíbrio e preparo muscular. Parar completamente costuma acelerar a perda de força e comprometer ainda mais a função da articulação a longo prazo.”
Existe um exame que mede a idade do joelho?
Apesar do conceito de idade biológica da articulação ser cada vez mais discutido na medicina, não existe um exame capaz de traduzir essa informação em um número.
A avaliação envolve diferentes aspectos, como histórico de lesões, qualidade da cartilagem observada nos exames de imagem, força muscular, mobilidade, alinhamento dos membros inferiores e forma como o paciente executa movimentos do dia a dia.
“Mais do que olhar apenas para uma radiografia ou ressonância, é importante entender como aquele joelho funciona. O objetivo não é fazer a articulação voltar a ter 20 anos, mas permitir que ela acompanhe o envelhecimento do corpo preservando autonomia, mobilidade e qualidade de vida”, conclui o especialista.
(Crédito: iStock)
