Roberto Nogueira explica por que nome limpo e score alto não garantem acesso ao crédito
Especialista em Direito Bancário e reestruturação de crédito explica como rating bancário, SCR, relacionamento com instituições financeiras e comportamento de crédito podem influenciar a análise dos bancos
Ter o nome limpo, manter as contas em dia e apresentar um bom score de crédito não significa, necessariamente, ter acesso facilitado a empréstimos, financiamentos ou limites bancários.
Essa diferença entre a percepção do consumidor e os critérios efetivamente utilizados pelas instituições financeiras é um dos pontos destacados por Roberto Nogueira, Promotor de Justiça aposentado, especialista em Direito Bancário e do Consumidor, que atua na análise e reestruturação de crédito de pessoas e empresas.

Segundo Nogueira, um dos erros mais comuns é acreditar que a ausência de negativação representa, por si só, um bom perfil de crédito.
“O score é uma informação relevante, mas não representa sozinho a forma como uma instituição financeira avalia um cliente. Os bancos trabalham com diversos dados e modelos internos de risco. Por isso, é perfeitamente possível encontrar uma pessoa com nome limpo e contas em dia que continue enfrentando dificuldades na obtenção de crédito”, explica.

A análise de crédito vai além do score
Na concessão de crédito, instituições financeiras podem considerar diferentes elementos para avaliar risco e capacidade financeira.
Entre eles estão histórico de pagamentos, renda ou faturamento, nível de endividamento, utilização de limites, quantidade de operações de crédito existentes, relacionamento com instituições financeiras, movimentação bancária e informações disponíveis nos sistemas utilizados pelo mercado financeiro.
Além disso, cada instituição possui suas próprias políticas e modelos internos de avaliação.
É nesse contexto que aparece o chamado rating bancário, expressão utilizada para representar avaliações de risco que podem considerar um conjunto mais amplo de informações do que aquelas normalmente visualizadas pelo consumidor em uma consulta convencional de score.
“Duas pessoas com score semelhante podem receber decisões completamente diferentes de uma mesma instituição financeira. Isso acontece porque a análise não termina no score”, afirma Roberto Nogueira.

O papel do SCR do Banco Central
Outro elemento relevante para compreender a análise de crédito é o Sistema de Informações de Créditos (SCR), administrado pelo Banco Central do Brasil.
O sistema reúne informações encaminhadas pelas instituições financeiras sobre operações de crédito e responsabilidades de clientes no Sistema Financeiro Nacional, observados os critérios estabelecidos pela regulamentação.
Essas informações ajudam a formar uma visão mais ampla da exposição financeira de pessoas e empresas.
Na prática, isso significa que alguém pode não possuir uma negativação convencional e, ainda assim, apresentar um conjunto de operações financeiras que seja considerado relevante durante uma análise de risco.
“Quando alguém afirma que está com o nome limpo, mas continua recebendo negativas, a pergunta técnica não deveria ser apenas ‘qual é o meu score?’. É necessário compreender o conjunto do perfil financeiro e bancário”, explica Nogueira.

Crédito negado mesmo com as contas em dia
A negativa de crédito costuma causar estranhamento principalmente quando o consumidor mantém seus compromissos financeiros regulares.
Entretanto, pagar as contas em dia é apenas um dos componentes que podem ser considerados.
Um nível elevado de comprometimento financeiro, utilização recorrente de limites, sucessivas solicitações de crédito, grande quantidade de operações simultâneas ou outros elementos do comportamento financeiro podem influenciar a percepção de risco.
No caso das empresas, a análise pode envolver ainda faturamento, fluxo de caixa, endividamento, capacidade de pagamento, relacionamento bancário e informações relacionadas aos sócios.
Por isso, Roberto Nogueira defende que situações recorrentes de dificuldade de acesso ao crédito sejam examinadas a partir de um diagnóstico financeiro mais amplo, evitando conclusões baseadas exclusivamente em score ou negativação.
Reestruturação de crédito não é renegociação de dívida
Outra distinção considerada importante pelo especialista é a diferença entre renegociação de dívida e reestruturação de crédito.
A renegociação normalmente está concentrada em uma obrigação financeira específica: prazo, juros, parcelas ou condições de pagamento.
A reestruturação possui abordagem diferente.
Seu objetivo é analisar o perfil financeiro e bancário de maneira mais abrangente, identificar fatores que possam estar prejudicando a capacidade de negociação e organizar medidas destinadas a melhorar progressivamente a estrutura financeira e o relacionamento com o sistema bancário.
“Antes de discutir qualquer estratégia, é necessário entender onde está o problema. Em muitos casos, a pessoa procura uma solução para o score quando a questão relevante está em outro componente da sua estrutura financeira”, afirma Roberto Nogueira.
Diagnóstico antes da estratégia
A metodologia defendida por Nogueira começa pela análise técnica das informações disponíveis.
O diagnóstico pode envolver dados cadastrais, histórico financeiro, operações de crédito, exposição bancária, capacidade de pagamento, relacionamento com instituições financeiras e informações disponíveis ao próprio cliente nos sistemas oficiais e privados de consulta.
Somente depois dessa leitura é possível discutir quais medidas fazem sentido para determinada situação.
O especialista ressalta, porém, que nenhum procedimento técnico permite garantir aprovação de crédito.
A decisão final pertence à instituição financeira, que possui autonomia para estabelecer seus próprios critérios e políticas de risco.
“A função de uma análise séria não é prometer que determinado banco concederá crédito. É identificar tecnicamente quais fatores podem estar afetando o perfil financeiro e organizar aquilo que está ao alcance do cliente”, afirma.
Da experiência jurídica à estratégia financeira
A atuação de Roberto Nogueira reúne experiência jurídica e análise aplicada às relações bancárias.
Formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Carlos, possui pós-graduação em Direito Público e especialização em Direito do Consumidor e Bancário. Antes da carreira jurídica pública, também teve experiência empresarial.
Atualmente, sua atuação profissional está concentrada em estratégia de crédito, reestruturação de crédito e análise financeira, atendendo pessoas e empresas que buscam compreender de maneira mais técnica sua relação com o sistema financeiro.
O trabalho também se conecta à atuação da *Nexus Nacional *, empresa voltada ao diagnóstico e desenvolvimento de soluções relacionadas à estrutura financeira e bancária de seus clientes.
Após mais de 16 anos de atuação como Promotor de Justiça, Roberto Nogueira passou a direcionar sua experiência jurídica e empresarial para a interpretação das relações entre consumidores, empresas e instituições financeiras.
Para ele, a evolução dos modelos de análise utilizados pelo mercado torna cada vez mais importante compreender que crédito não depende de um indicador isolado.
“Nome limpo é importante. Score também é importante. Mas nenhum deles, isoladamente, explica como os bancos enxergam uma pessoa ou uma empresa. Crédito é resultado de uma análise muito mais ampla”, conclui Roberto Nogueira.
(Crédito: Divulgação)
