TDAH aos 17 anos: o diagnóstico que fez uma mãe rever 17 anos de história
Após anos interpretando comportamentos do filho como desatenção, desorganização ou falta de esforço, mãe descobre o TDAH do adolescente e passa a ressignificar situações vividas desde a infância
É assim que Rosália Oliveira, 46 anos, comunicadora e mãe solo, resume o impacto de descobrir que o filho, hoje com 17 anos, tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
O diagnóstico trouxe preocupação diante da nova etapa de acompanhamento, mas também permitiu que Rosália revisitasse situações que fizeram parte da rotina familiar durante anos. Perda de objetos, destruição de canetas, comportamentos impulsivos e situações aparentemente banais, como brincar repetidamente com a torneira, passaram a ser observados sob uma nova perspectiva.
A experiência levanta uma questão que pode passar despercebida por muitas famílias: por que alguns adolescentes chegam aos 16 ou 17 anos sem um diagnóstico de TDAH?
Quando as demandas aumentam, as dificuldades podem ficar mais evidentes
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que começa na infância e pode persistir ao longo da vida. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, embora o diagnóstico seja frequentemente realizado durante a infância, não é raro que ele aconteça posteriormente.
Uma das razões é que algumas dificuldades podem ficar menos evidentes quando a criança conta com maior supervisão dos adultos. Com o avanço da adolescência, porém, aumentam as exigências relacionadas à autonomia, organização, planejamento, estudos, cumprimento de prazos e responsabilidades.
Quem tem TDAH enfrenta dificuldades em planejar e executar.
O PCDT do Ministério da Saúde estima prevalência de 7,6% de TDAH entre crianças e adolescentes brasileiros de 6 a 17 anos.
O diagnóstico, no entanto, não pode ser estabelecido a partir de um comportamento isolado. A avaliação precisa considerar a história do indivíduo, a presença dos sintomas e os prejuízos provocados por eles em diferentes áreas da vida.
Um dos indícios mais fortes pode ser o desempenho escolar.
Da dúvida à ressignificação
Antes do diagnóstico, comportamentos do filho de Rosália podiam ser compreendidos apenas como desatenção, desorganização, impulsividade, falta de esforço ou até mesmo coisas da idade.
Com a descoberta do TDAH, a mãe passou a olhar para a trajetória do adolescente de outra maneira.
“Foi uma dor e, ao mesmo tempo, um alívio”, resume Rosália, ao falar sobre o momento em que recebeu a confirmação.
O processo também provocou mudanças na própria mãe. Ao buscar informações sobre o transtorno e compreender melhor o que o diagnóstico significava, ela percebeu que precisava se colocar como prioridade também para conseguir acompanhar o filho de maneira mais preparada.
Para essa mãe, a informação passou a ser uma ferramenta para diminuir a ansiedade e substituir parte da culpa e das dúvidas por compreensão.
Diagnóstico na adolescência exige avaliação profissional
Para a psicóloga e neuropsicóloga Paola Fernanda Araújo, situações como a vivida pela família do paciente reforçam a importância de observar o conjunto de características apresentadas pelo adolescente, e não apenas comportamentos específicos.
A orientação profissional é especialmente importante porque desatenção, dificuldade de organização ou impulsividade podem ter diferentes causas e, isoladamente, não significam que uma pessoa tenha o transtorno.
A experiência da família permite discutir o TDAH a partir de uma perspectiva que vai além do diagnóstico, muitas mães hoje em dia ainda não buscam ajuda por medo das possíveis certezas, mas somente a clareza e o entendimento levam a um caminho mais leve, reforça.
Sobre a especialista
Paola Fernanda Araújo
Psicóloga | Neuropsicóloga | Analista do Comportamento | Especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) | Pós-graduada em Neurociências e Comportamento.
(Crédito: Divulgação)
