Venda de medicamentos em supermercados reacende debate sobre segurança, orientação farmacêutica e impacto no setor
Projeto aprovado na Câmara permite instalação de farmácias em supermercados; especialista alerta para riscos da banalização do medicamento e destaca o papel estratégico do farmacêutico
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que autoriza a instalação de farmácias em supermercados volta a colocar o setor farmacêutico no centro do debate regulatório. O texto, que segue para sanção presidencial, permite a comercialização de medicamentos nesses estabelecimentos, desde que haja espaço físico independente e presença obrigatória de farmacêutico responsável técnico durante todo o horário de funcionamento.
A medida impacta um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo. Segundo dados da IQVIA, o varejo farmacêutico brasileiro movimenta mais de R$ 150 bilhões por ano. O país conta com mais de 90 mil farmácias ativas, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), e figura entre os cinco maiores mercados globais do setor. Em um cenário já altamente competitivo, a entrada de supermercados como novos pontos de venda amplia a discussão sobre acesso, segurança sanitária e responsabilidade técnica.
Para a farmacêutica e empresária Fabiola Faleiros, à frente da La Pharma e da Unna Pharma, o debate não pode ser reduzido à concorrência comercial.
“A presença do farmacêutico continua sendo obrigatória, e isso é fundamental. Medicamento não é produto de conveniência. Ele exige orientação técnica, avaliação de risco e responsabilidade. O acesso pode ser ampliado, mas a segurança precisa ser preservada”, afirma.
Automedicação e cultura de consumo
O Brasil já enfrenta um cenário preocupante em relação ao uso indiscriminado de medicamentos. Pesquisa do ICTQ aponta que cerca de 77% dos brasileiros admitem praticar automedicação. Além disso, dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) indicam que medicamentos estão entre as principais causas de intoxicação no país.
Na avaliação de Fabiola, a discussão deve considerar esse contexto.
“Quando aproximamos o medicamento de ambientes associados à compra por impulso, precisamos reforçar ainda mais o papel do farmacêutico como orientador. O risco não está apenas na venda, mas na percepção do medicamento como algo simples, cotidiano, sem necessidade de avaliação.”
Ela reforça que a atuação clínica do farmacêutico é o último filtro antes do início de um tratamento.
“É o profissional que identifica interações, contraindicações, duplicidade terapêutica. Essa etapa não pode ser fragilizada.”
Pressão no varejo e valorização da especialização
O setor farmacêutico brasileiro passou por forte consolidação nos últimos anos, com grandes redes ampliando participação e pequenas farmácias enfrentando margens mais apertadas. A possibilidade de farmácias dentro de supermercados pode intensificar esse movimento.
Para Fabiola, o cenário pode acelerar uma transformação no modelo de negócio.
“Quando o mercado se amplia em volume, a especialização tende a ganhar mais valor. A farmácia de manipulação trabalha com individualização terapêutica, doses personalizadas e soluções específicas para cada paciente. Esse é um diferencial que não se replica em modelos massificados.”
O segmento magistral brasileiro atende milhões de pacientes e se destaca justamente pela personalização. Em um contexto de padronização crescente no varejo tradicional, a diferenciação técnica pode se tornar ainda mais estratégica.
Tendência no mercado veterinário
Outro segmento em expansão é o mercado pet. O Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo, movimentando mais de R$ 60 bilhões por ano, segundo o Instituto Pet Brasil. Dentro desse universo, a manipulação veterinária vem crescendo pela possibilidade de adequar dosagens, sabores e formulações específicas para cada animal.
Fabiola está em fase de estruturação de uma farmácia veterinária de manipulação, que ainda não está em funcionamento, mas deve marcar sua entrada nesse segmento.
“O crescimento do mercado pet é uma tendência clara. A saúde animal exige o mesmo rigor técnico da saúde humana. A manipulação permite personalização de doses, adequação para diferentes portes e espécies, o que aumenta adesão ao tratamento e segurança.”
Segundo ela, o movimento regulatório atual reforça a importância de profissionais altamente qualificados em todos os segmentos farmacêuticos.
“Independentemente do canal de venda, a responsabilidade técnica é o centro da atividade farmacêutica. A expansão do mercado exige mais preparo, mais qualificação e mais compromisso com a saúde pública.”
Transformação estrutural
Para a empresária, a aprovação do projeto não representa ruptura imediata, mas sinaliza uma reconfiguração do setor.
“O mercado farmacêutico brasileiro é robusto, regulamentado e altamente técnico. O que precisamos garantir é que qualquer ampliação de acesso venha acompanhada de responsabilidade. Medicamento não pode ser tratado como item comum de consumo.”
Ela conclui:
“O centro da discussão precisa ser a segurança do paciente. A atuação do farmacêutico é o que sustenta essa segurança — seja na indústria, na manipulação ou no varejo.”
