Medo de dentista ainda afasta pacientes e novas tecnologias sem agulha ajudam a mudar esse cenário
Com até 36% da população relatando ansiedade odontológica, técnicas como sedação consciente e anestesia por pressão tornam o atendimento mais confortável e aumentam a adesão aos tratamentos
Ir ao dentista ainda é um desafio para boa parte da população. Não por falta de informação, mas por medo. Estudos indicam que cerca de 36% das pessoas apresentam algum nível de ansiedade odontológica, enquanto uma parcela menor, porém relevante, desenvolve fobia e evita completamente consultas e procedimentos.
Esse comportamento tem impacto direto na saúde. Pacientes que adiam o atendimento tendem a chegar ao consultório com quadros mais complexos, que exigem tratamentos mais longos, mais invasivos e, muitas vezes, mais caros.
Na maioria dos casos, o medo não está relacionado ao procedimento em si, mas à expectativa de dor. E dentro desse cenário, a anestesia tradicional ainda aparece como um dos principais gatilhos de ansiedade.
Esse é um dos pontos que começam a mudar com a evolução da odontologia.
“A gente percebe que muitos pacientes chegam tensos antes mesmo de qualquer avaliação. Existe uma memória coletiva muito forte ligada à dor no consultório”, explica o cirurgião dentista Dr. Alexandre Parreira, responsável pelo Instituto Novus Odontologia Moderna, em São Bernardo do Campo.
Segundo ele, o avanço tecnológico tem permitido uma experiência muito diferente daquela que marcou gerações anteriores.
Uma das mudanças mais relevantes está na forma de anestesiar. A anestesia sem agulha por pressão, também conhecida como sistema jet injector, utiliza um jato controlado para aplicar o anestésico diretamente no tecido, eliminando o uso da seringa.
Na prática, isso reduz significativamente o desconforto físico e, principalmente, o impacto emocional do procedimento.
“A agulha ainda é um dos maiores gatilhos de medo. Quando esse elemento deixa de fazer parte do atendimento, o paciente já chega em outro estado”, afirma.
Outro recurso que vem ganhando espaço é a sedação consciente inalatória, realizada com uma combinação de oxigênio e óxido nitroso. O método não faz o paciente dormir, mas induz um estado de relaxamento que reduz a ansiedade e a percepção de dor.
“O paciente permanece consciente, responde normalmente, mas com muito mais tranquilidade. Isso facilita o atendimento e torna todo o processo mais confortável”, explica.
A combinação dessas tecnologias tem impacto direto na adesão ao tratamento. Pacientes que antes evitavam o dentista passam a retomar o cuidado com a saúde bucal, muitas vezes após anos sem acompanhamento.
Na rotina clínica, esse movimento já é perceptível. Um dos casos acompanhados recentemente foi o de uma paciente adulta que não realizava consultas há mais de dez anos por medo de anestesia. Com o uso de sedação consciente e anestesia sem agulha, foi possível conduzir o tratamento completo com segurança e sem dor.
De acordo com o relato da equipe, a mudança na percepção foi imediata. A paciente chegou extremamente ansiosa e terminou o atendimento surpresa por não ter sentido desconforto.
O impacto também é significativo no atendimento infantil. A primeira experiência no consultório é determinante para a relação que a criança terá com a odontologia ao longo da vida.
Experiências negativas aumentam a chance de rejeição futura. Por outro lado, atendimentos mais leves e sem dor ajudam a construir uma relação mais tranquila com o cuidado.
Além da questão emocional, há ganhos clínicos importantes. Pacientes mais relaxados colaboram melhor durante os procedimentos, o que contribui para maior precisão, menor tempo de intervenção e melhores resultados.
Esse movimento aponta para uma mudança de paradigma. A odontologia deixa de ser apenas técnica e passa a incorporar, de forma mais consistente, a experiência do paciente como parte fundamental do tratamento.
“Hoje não basta tratar. É preciso cuidar da forma como esse tratamento acontece. Quando o paciente perde o medo, ele volta, mantém o acompanhamento e evita problemas maiores”, conclui o especialista.
