Nem toda dor faz barulho: escutar pode ser o primeiro cuidado em saúde mental
Paraná registrou 2,1 milhões de atendimentos na área em 2025; no Dia Mundial da Saúde Mental, neurocientista alerta para sinais silenciosos e para o perigo de transformar sofrimento em rotina
A pessoa continua trabalhando, responde às mensagens, cuida da família e tenta cumprir todos os compromissos. Por fora, parece estar bem. Por dentro, pode enfrentar ansiedade, perda de interesse, irritabilidade, cansaço persistente ou uma sensação de vazio que ninguém percebe. Os números mostram que esse sofrimento está longe de ser isolado. O Paraná registrou 2,1 milhões de atendimentos individuais em saúde mental em 2025. No mesmo período, o Samu paranaense contabilizou 45.424 ocorrências psiquiátricas, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. Os dados ajudam a dimensionar o tema lembrado mundialmente em 10 de outubro. Em 2026, o Dia Mundial da Saúde Mental tem como lema “Experiências vividas ouvidas: vozes reais, mudanças reais”, escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para defender que pessoas que vivem ou viveram condições de saúde mental sejam ouvidas e participem das decisões relacionadas ao próprio cuidado.
Para o neurocientista e hipnoterapeuta Renê Skaraboto, do Instituto e Clínica Hipnose para Todos, ouvir sem julgar é uma das primeiras formas de acolhimento. “Muitas pessoas não demonstram o sofrimento da maneira que imaginamos. Elas continuam produzindo, sorrindo e cumprindo obrigações, enquanto fazem um esforço enorme apenas para atravessar o dia. Quando alguém finalmente consegue falar, a resposta não deve ser comparação, julgamento ou uma frase pronta. O primeiro cuidado é escutar”, afirma.

A OMS estima que quase uma em cada sete pessoas no mundo vivia com algum transtorno mental em 2023, o equivalente a aproximadamente 1,2 bilhão de pessoas. Ansiedade e depressão aparecem entre as condições mais frequentes. Nem toda tristeza, preocupação ou reação ao estresse representa um transtorno. Emoções desagradáveis também fazem parte da vida. O sinal de atenção surge quando as mudanças persistem, provocam sofrimento significativo ou começam a prejudicar o trabalho, os estudos, os relacionamentos, o sono e os cuidados pessoais. Entre os sinais que merecem observação estão perda de interesse por atividades antes prazerosas, isolamento, alterações intensas de sono ou apetite, irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, crises de ansiedade, uso crescente de álcool ou outras substâncias, sensação de incapacidade e desesperança.
“Existe uma tendência de normalizar o esgotamento. A pessoa diz que é apenas uma fase, que todo mundo vive cansado ou que precisa ser mais forte. Só que o corpo e o comportamento começam a dar sinais. Dormir mal todos os dias, perder o prazer, viver em alerta ou não conseguir mais realizar tarefas simples não deveria ser tratado como fraqueza”, explica Skaraboto. No caso da depressão, a OMS diferencia a condição das oscilações comuns de humor. Um episódio depressivo envolve tristeza, irritabilidade, sensação de vazio ou perda de interesse durante a maior parte do dia, quase diariamente, por pelo menos duas semanas, acompanhado de outros sintomas e prejuízo à vida cotidiana.
O crescimento dos conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais ampliou o acesso à informação, mas também estimulou diagnósticos feitos sem avaliação profissional. Listas genéricas de sintomas podem levar uma pessoa a acreditar que possui determinada condição ou a minimizar um quadro importante por não se identificar com todos os itens apresentados em um vídeo. “Informação pode ajudar alguém a perceber que precisa de apoio, mas não substitui avaliação. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes e ter necessidades completamente diferentes. O cuidado precisa considerar história de vida, contexto, intensidade, duração e impacto funcional”, observa Skaraboto. O mesmo princípio vale para familiares e amigos. A tentativa de ajudar não deve transformar a conversa em interrogatório nem em prescrição improvisada. Expressões como “isso é falta do que fazer”, “pense positivo” ou “tem gente em situação pior” podem aumentar a culpa e afastar a pessoa. Perguntar como ela está, demonstrar disponibilidade, incentivar a procura por atendimento e oferecer companhia para chegar a um serviço de saúde são atitudes mais seguras.
A hipnoterapia está entre as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde registradas no Paraná. Em 2025, o estado contabilizou mais de 69 mil atendimentos envolvendo diferentes práticas integrativas, oferecidas em 716 unidades de saúde de 244 municípios. Na hipnoterapia, técnicas de atenção concentrada e sugestões são utilizadas para trabalhar percepções, hábitos e respostas automáticas. Skaraboto ressalta que o recurso não deve ser apresentado como solução universal nem como substituto para acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou médico quando esses cuidados são necessários. “A hipnoterapia pode fazer parte de um plano de cuidado, mas precisa ser utilizada com responsabilidade e dentro de seus limites. Saúde mental não combina com promessas de resultado imediato. Em alguns casos, o mais importante é encaminhar a pessoa para outro profissional ou construir um acompanhamento conjunto”, afirma. A decisão sobre qualquer abordagem deve considerar as necessidades individuais, o quadro apresentado e a qualificação de quem realiza o atendimento. Tratamentos em andamento, especialmente o uso de medicamentos, não devem ser interrompidos ou modificados sem orientação do profissional responsável.
O tema mundial de 2026 chama atenção para um ponto que muitas vezes desaparece no debate: pessoas com sofrimento mental não são apenas destinatárias de tratamentos. Suas experiências podem ajudar famílias, profissionais e instituições a compreender barreiras, avaliar atendimentos e construir formas mais humanas de cuidado. “Escutar uma experiência não significa romantizar a dor. Significa reconhecer que existe uma pessoa por trás do diagnóstico e que ela conhece aspectos do próprio sofrimento que nenhum manual consegue explicar sozinho”, diz Skaraboto. A rede pública de Curitiba tem as Unidades de Saúde como porta prioritária de entrada para o atendimento em saúde mental. O município também possui dez Centros de Atenção Psicossocial para adultos e três CAPS infantojuvenis. Casos graves ou agudos podem ser atendidos nas Unidades de Pronto Atendimento ou pelo Samu, no número 192. Situações que envolvam pensamentos de morte, risco de suicídio, desorientação intensa, comportamento que coloque a pessoa ou terceiros em perigo e perda importante de contato com a realidade exigem ajuda imediata. O Centro de Valorização da Vida também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.
No Dia Mundial da Saúde Mental, a mensagem não precisa caber em uma frase motivacional. Pode começar com uma pergunta simples, “como você realmente está?”, seguida da disposição genuína de ouvir a resposta.
Serviço: Instituto e Clínica Hipnose para Todos
Renê Skaraboto
Neurocientista e Hipnoterapeuta
(41) 99692-9774
@hipnose_para_todos
www.clinicahipnoseparatodos.com.br
Endereço: Rua Desembargador Westphalen, 15, sala 604, 6º andar, Ed. Dante Aliguieri, Centro, Curitiba/PR
(Crédito: Arquivo Pessoal / Web)
