Virginia, Bruna Marquezine e Kardashians redesenham o skincare e acendem alerta sobre autoestima
Pesquisa internacional reforça impacto das redes na percepção da imagem enquanto especialistas analisam riscos, consumo e excesso de informação
A rotina de cuidados com a pele nunca esteve tão em evidência quanto agora. Impulsionado por nomes como Virginia Fonseca, Bruna Marquezine e a família Kardashians, o skincare deixou de ser apenas autocuidado para se tornar um fenômeno cultural, econômico e comportamental. O que antes era restrito a consultórios dermatológicos hoje viraliza em vídeos curtos, tutoriais e rotinas que prometem resultados rápidos e, muitas vezes, transformadores.
Uma pesquisa da American Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgery (AAFPRS) mostra que mais de 70% dos cirurgiões identificaram aumento na procura por procedimentos influenciados diretamente por redes sociais e selfies. O dado ajuda a entender por que a estética passou a ocupar um espaço que vai além da aparência, influenciando autoestima, decisões pessoais e até a forma como as pessoas se enxergam no espelho.
Esse movimento também altera o comportamento de consumo. O público chega mais informado, mas nem sempre mais consciente. E é nesse ponto que o mercado se reposiciona, ao mesmo tempo em que especialistas alertam para os limites entre cuidado e excesso.
Para o cirurgião plástico Yuri Moresco, o que mudou não foi apenas a procura por procedimentos, mas a expectativa em torno deles. Ele observa que existe uma tentativa de transformar a aparência em solução para questões emocionais mais profundas, o que pode gerar frustração. “Hoje, muitos pacientes chegam com referências muito específicas, muitas vezes baseadas em imagens filtradas ou idealizadas. Existe uma expectativa de que a mudança estética traga uma transformação completa de vida, de autoestima e até de relações pessoais. A medicina estética pode contribuir, mas ela não substitui processos internos. Quando essa expectativa não é alinhada, o resultado pode ser tecnicamente bom e ainda assim emocionalmente insuficiente”, explica.
A influência direta das redes também cria um ambiente de comparação constante, onde a percepção da própria imagem passa a ser mediada por padrões irreais. O médico André Baraldo, especialista em cirurgia facial, chama atenção para o fato de que muitas análises feitas pelo público não consideram fatores básicos de imagem. Segundo ele, o problema começa na referência. “As pessoas estão comparando rostos a partir de fotos que não representam a realidade. Iluminação, ângulo, maquiagem e filtros alteram completamente a forma como o rosto é percebido. Isso gera uma leitura distorcida e pode levar a decisões precipitadas, porque o ponto de partida já não é real. Nem sempre há um procedimento por trás das mudanças que viralizam”, afirma.
Esse processo não afeta apenas a decisão de realizar procedimentos, mas também o que acontece depois deles. A adaptação à própria imagem é uma etapa pouco discutida, mas essencial. O especialista Marco Cassol explica que o cérebro precisa reconhecer a nova aparência como parte da identidade. “Após uma cirurgia, existe um período em que o paciente ainda não se reconhece completamente. O cérebro passa por um processo de adaptação que envolve áreas ligadas à autoimagem. Esse estranhamento inicial é esperado, mas quando não é explicado antes, pode gerar ansiedade e insegurança. Por isso, o preparo emocional é tão importante quanto o procedimento em si”, destaca.
Enquanto isso, o mercado acompanha esse comportamento em tempo real. A demanda cresce, os produtos se multiplicam e as marcas disputam atenção em um ambiente cada vez mais acelerado.
Lucas Penteado, especialista em varejo e fundador da Piny, avalia que as redes sociais elevaram o nível de conhecimento do consumidor, mas também criaram novos desafios. Ele observa que o acesso à informação não garante qualidade na decisão. “O consumidor hoje chega sabendo o nome dos ativos, entende tendências e acompanha lançamentos em tempo real. Isso sofisticou o mercado, mas também trouxe um efeito colateral importante: nem sempre essa informação vem de fontes confiáveis. Existe uma sensação de domínio sobre o tema, mas sem a profundidade necessária, o que aumenta o risco de escolhas inadequadas e uso excessivo de produtos”, analisa.
Na mesma linha, Luna Feldmann, diretora de marketing da Le Moritz, destaca que o excesso virou uma das principais distorções desse novo cenário. Para ela, a estética digital criou uma lógica que nem sempre conversa com a realidade da pele. “As redes sociais incentivam rotinas longas, com muitos produtos e resultados rápidos, mas isso não reflete a prática clínica. Especialmente em peles maduras, por exemplo, o excesso pode ser prejudicial. Existe uma falta de representatividade e de informação direcionada, o que faz com que muitas pessoas sigam recomendações que não são adequadas para elas. Skincare não é quantidade, é consistência e adequação”, afirma.
Nesse contexto, o que se vê é uma indústria impulsionada por desejo, influência e velocidade, mas que ainda precisa equilibrar informação, responsabilidade e saúde. A estética nunca esteve tão acessível, mas também nunca exigiu tanto senso crítico.
No fim, o impacto de figuras públicas e da cultura digital não está apenas no que se usa na pele, mas na forma como cada pessoa se enxerga. E é justamente nesse ponto que o debate deixa de ser estético e passa a ser, sobretudo, emocional.
Fonte:
American Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgery (AAFPRS) – https://www.aafprs.org
(Crédito: Foto produzida por IA)
